domingo, 19 de novembro de 2017

Geodiversidade: Conceito e valor


      «A utilização do termo geodiversidade é relativamente recente (…) e tanto o termo como o conceito de geodiversidade não apresentam ainda uma implantação sólida, mesmo entre a comunidade geológica» (Brilha, 2005). De acordo com Gray (2004), citado por Brilha (2005) «o termo surgiu por ocasião da Conferência de Malvern sobre Conservação Geológica e Paisagística, realizada em 1993 no Reino Unido.» O conceito tem sido definido por inúmeros autores estando, todavia, longe de ser consensual. «Enquanto que para alguns a geodiversidade se limita ao conjunto de rochas, minerais e fósseis, para outros o conceito é mais alargado integrando mesmo as comunidades de seres vivos» (Brilha, 2005). «Some of the first uses appear to have been in Tasmania, Australia. Kevin Kiernan was using the terms “landform diversity” and “geomorphic diversity in the 1980s and drawing analogies with biological concepts by using terms such as “landform species” and “landform communities”» (Gray, 2004). Segundo a definição apresentada pela Royal Society for Nature Conservation do Reino Unido, a geodiversidade consiste na variedade de ambientes geológicos, fenómenos e processos ativos que dão origem a paisagens, rochas, minerais, fósseis, solos e outros depósitos superficiais que são o suporte para a vida na Terra. «Assim, a geodiversidade compreende apenas os aspetos não vivos do nosso planeta. E não apenas os testemunhos provenientes de um passado geológico mas também os processos naturais que atualmente decorrem dando origem a novos testemunhos» (Brilha, 2005). «However, geoconservation does not focus solely on the importance of non-living things in conserving biological systems, bu tis also based on the premise that geodiversity has important conservation values of its own, independent of any role in sustaining living things»   (Sharples, 2002).
A geodiversidade determinou ao longo do tempo a ocupação humana das áreas à superfície terrestre e as atividades humanas têm sido condicionadas pela riqueza e diversidade dos materiais geológicos. Desde a fixação humana em áreas com condições climáticas e de relevo mais favoráveis, passando pelas mais variadas utilizações de recursos geológicos, como fontes energéticas, água, minerais metálicos e não metálicos, aos produtos consumidos e que são fabricados com materiais extraídos da Terra. A biodiversidade é determinada pela geodiversidade, na medida em que os seres vivos dependem do ambiente físico-químico para a sua sobrevivência e dependem de condições abióticas indispensáveis à sua continuidade. As plantas, por exemplo, captam do solo grande parte dos seus nutrientes e algumas espécies só subsistem mesmo com as características particulares do seu habitat, de que é exemplo a Welwitschia mirabilis, encontrada somente no deserto do Namibe, em Angola. As fotos que a seguir se apresentam são da minha autoria, tiradas no deserto do Namibe em 2016. 


  


«A geodiversidade resulta de uma multiplicidade de fatores e da relação entre eles. (…). Os primeiros responsáveis pela geodiversidade são os pouco mais de 90 elementos químicos (…). Na Natureza, quando os elementos químicos se ligam entre si originam moléculas que, por sua vez, dão origem a diversos tipos de substâncias/produtos. Os minerais são desses produtos» (Brilha, 2005). Geologicamente, os minerais são corpos sólidos, com estrutura cristalina, naturais e inorgânicos e com composição definida ou variável dentro de certos limites. A composição química e a organização estrutural da matéria cristalina conferem aos minerais determinadas propriedades físicas e químicas que facilitam a sua identificação, designadamente dureza, cor, brilho, clivagem, entre outros. «Rocks are a natural aggregation of minerals and fall into three groups – igneous, metamorphic and sedimentar – each of which has its own incredible diversity» (Gray, 2004). Atendendo às características e às condições que presidiram à sua génese, os diferentes tipos de rochas assumem diferentes aspetos na paisagem.
No decurso do tempo múltiplos fenómenos afetaram a Terra, modificando as suas paisagens, onde ocorreram alterações climáticas, os continentes e os oceanos modificaram as suas posições e ocorrência de intensa atividade vulcânica e sísmica.«In addition, the history of life on Earth is punctuated by five major massive extinctions and several smaller events during which a significant proportion of living forms disappeared within a brief period in geological terms» (Gray, 2004). O conhecimento e compreensão dos processos e dos materiais geológicos é assim essencial na definição de regras de ocupação e ordenamento dos territórios, que assentem na redução ou eliminação dos riscos geológicos e/ou geomorfológicos associados. «Geological research has also enabled the reconstruction of the changing geography of the planet as the supercontinente of Pangea initially fractured and then drifted apart on huge tectonic plates driven by mantle convection currents. Research has demonstrated the close link between tectonic plates margins and volcanic and earthquake activity, and study of the pattern of past natural hazards help us to predict the location and timing of future disasters» (Gray, 2004). 


Fonte: Miller, Tyler (2005) – Living in the environment, p.85

Estas modificações geológicas, geográficas e biológicas estão registadas e preservadas nas rochas que se formaram ao longo dos períodos da história da Terra. As rochas geradas por processos naturais muito antigos, são assim testemunhos das condições em que se originaram e contêm informações cuja leitura e interpretação permitem compreender a complexa história evolutiva até ao presente. «The fossil record contained in the rocks the evolution of species from the simplest unicellular organisms to the early history of humans» (Gray, 2004). Segundo Wiedenbein (1994), citado por Gray (2004) «Fossils are not only records of evolution … they also allow us to have a look at the construction of living matter of past biospheres».  
As rochas estão sujeitas a múltiplos processos e experimentam profundas e complexas transformações após a sua génese, em consequência de intensas forças que sobre elas atuam. Como consequência da dinâmica da litosfera, originam-se forças tectónicas que tendem a produzir a deformação dos materiais rochosos e traduz-se pelo aparecimento de estruturas geológicas como falhas e dobras. Quando expostas à ação de agentes externos e variados, tais como a água, o vento, as mudanças de temperatura e os próprios seres vivos, sofrem alterações físicas e químicas, fenómeno designado por meteorização. Em consequência da meteorização, as rochas vão sendo alteradas e desagregadas, em que os materiais resultantes podem ficar acumulados no local de origem ou serem removidos, quer por ação da gravidade quer pela água, pelo vento ou pelo gelo e ainda, no decurso do transporte, os materiais experimentam sucessivas alterações.
«A geodiversidade manifesta-se ainda como resultado da existência de seres vivos que evoluíram ao longo de milhões de anos e cujas evidências ficaram preservadas nas rochas. Os fósseis, essenciais ao conhecimento da biodiversidade do nosso planeta, são também elementos intrínsecos da geodiversidade. Finalmente, os solos, cuja formação está intimamente relacionada com a alteração das rochas e com a presença de matéria orgânica, estabelecem uma ponte perfeita entre a geo e a biodiversidade» (Brilha, 2005). As rochas e os solos servem de suporte a grande parte das formas da vida terrestre, fornecendo muitos dos materiais necessários à manutenção dessas formas de vida, numa interação contínua com os diferentes subsistemas. Os seres vivos existentes num determinado espaço, dependem das condições do meio para a sua sobrevivência, contudo, exercem do mesmo modo importantes influências sobre esse meio, mantendo-se num delicado equilíbrio. A riqueza e diversidade das paisagens naturais resulta da combinação de todos estes fatores e, inequivocamente, são um dos principais elementos a considerar na geodiversidade. “ Em todas as paisagens naturais existe, obviamente, o contributo dado pela biodiversidade. Mas não pode esquecer-se que são o tipo de substrato, o relevo e o clima que determinam a biodiversidade. De acordo com Stanley (2002), citado por Gray (2004) «biodiversity is part of geodiversity.»
«Quando características particulares de uma paisagem são determinantes para o desenvolvimento de atividades humanas, ou quando estas atividades conseguem imprimir uma marca particular à paisagem natural, fala-se de paisagens culturais. É o exemplo da região do Alto Douro Vinhateiro, inscrito na categoria de Paisagens Culturais na Lista de Património Mundial da UNESCO» (Brilha, 2005). 


Fonte: Alto Douro Vinhateriro 
acedido em 19 de novembro de 2017

 
A geodiversidade em Portugal é reconhecidamente marcada por paisagens muito diversificadas, num território de reduzida dimensão. A obra de Orlando Ribeiro, “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico” constitui uma síntese pormenorizada da diversidade das paisagens portuguesas e da indissociabilidade entre as condições físicas do meio e as sociais. Trata-se de uma obra que, detalhadamente, apresenta a descrição das paisagens naturais portuguesas, articulando a Geografia Física de Portugal com a sua Geografia Humana. «É preciso considerar a persistência das condições naturais e a continuidade do esforço humano para compreender as gentes e os lugares. (…) Nesta mistura de gente e de plantas, assim como na variedade das regiões. Áreas muito próximas e muito diferentes. (…) Portugal é mediterrâneo por natureza, atlântico por posição». (Ribeiro, 1945).     
«De todos os valores que se atribuem à geodiversidade, o intrínseco é, provavelmente, o mais subjetivo. Esta subjetividade advém da dificuldade de quantificação deste valor (…). Há quem defenda que a Natureza deve estar à disposição dos seres humanos, a fim de satisfazer as suas necessidades, (…) outros há que, pelo contrário, consideram que o Homem é parte integrante da Natureza, fazendo com que esta possua um valor próprio» (Brilha, 2005).
De acordo com Woodcock (1994), citado por Gray (2004) «rocks, minerals, sediment, soil and even fossils, all have economic value, though this varies depending on the nature of the material involved. (…) The usual classification of economic mineral resources is into mineral fuels, industrial, metallic and precious minerals and construction minerals, but the economic value of the abiotic environment should also include fossils, other forms of energy and indeed soil and landscape resources.»   Uma das aplicações mais visíveis das rochas e da sua importância como recurso é a sua utilização na construção civil e na pavimentação, de que são exemplo, os vastíssimos monumentos portugueses, de beleza e singularidade ímpares, e que foram edificados aproveitando rochas abundantes na região e que, a par do valor económico, reúnem reconhecidamente um valor cultural, estético e educativo, imensuráveis.  Functional value (…) is clear that soils, sediments, landsforms and rocks all have a functional role in environmental systems, both physical and biological (Gray, 2004).  
A intervenção antrópica nos subsistemas terrestres é atualmente tão intensa que tem conduzido a uma progressiva degradação ambiental, gerando perturbações nos diversos ambientes naturais. Decorrente não só do elevado consumo de recursos naturais que sustentam todas as atividades humanas, mas igualmente do aumento da poluição que resulta da exploração e utilização desenfreada desses recursos. A poluição introduz alterações indesejáveis ao nível dos diferentes subsistemas terrestres, suscetíveis de prejudicarem a qualidade do ambiente e a saúde humana. Os efeitos da poluição têm impactos a nível local, especialmente em áreas densamente povoadas, ou a nível mundial, afetando o equilíbrio global da Terra.
«A geodiversidade encontra-se ameaçada a diversas escalas e em graus distintos. Podemos assistir desde a degradação da paisagem natural à destruição circunscrita a um pequeno afloramento» (Brilha, 2005).
A implementação de estratégias que permitam a conservação de elementos geológicos que possuem inegável valor científico, educativo, cultural, funcional e económico, os chamados geossítios, são escolhas que se enquadram numa perspetiva de promoção do desenvolvimento sustentável. «The GEOSITES project was an initiative of the International Union of Geological Sciences and is designed to support identification of geological areas (sites) of international importance ( Recommendation on conservation of the geological heritage and areas of special geological interest) Dado o interesse destas estruturas impõe-se, assim, a necessidade de as conservar, através de uma utilização e gestão sustentável da geodiversidade, assegurando uma exploração sustentada dos recursos geológicos, num modelo global que permita às gerações atuais a satisfação das suas necessidades sem comprometerem a possibilidade das gerações vindouras satisfazerem as suas próprias. «É cada vez mais urgente consciencializar o cidadão do lugar que ocupa na bio e na geodiversidade e do modo como melhor se articular com elas, no respeito pelo equilíbrio ambiental, pela melhoria da qualidade de vida e pela preservação do património a legar aos vindouros» (Brilha, 2005). De acordo com Baba Dioum, citado por Gray (2004) 
«For in the end we will conserve only what we love. 
We will love only what we understand.
 And we will understand only what we are taught


Referências bibliográficas: 
- Alto Douro Vinhateriro in  http://www.lisbonne-idee.pt/p2954-alto-douro-vinhateiro-patrimonio-mundial-anos.html, acedido em 19 de novembro de 2017. 
 - Brilha, J. (2005). Património Geológico e Geoconservação, pp. 17-40. Braga: Palimage.
 - Gray, M. (2004). Geodiversity: valuing and conserving abiotic nature. Chichester: John Wiley & Sons Ltd. 
 - Miller, G. Tyler & Spoolman, Scott (2005)”Living in the Environment: Concepts, Connections, and Solutions”, Brooks/Cole, Belmont.
- Recommendation Rec(2004)3 on conservation of the geological heritage and areas of special geological interest. Committee of Ministers on 5 May 2004 at the 883rd meeting of the Ministers’ Deputies. 
 - Ribeiro, O. (1945). Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Coimbra Editora Limitada, in https://archive.org/details/OrlandoRibeiroPortugalOMediterraneoEOAtlantico, acedido em 19 de novembro de 2017.
 - Sharples (2002). Concepts and Principles of Geoconservation. Tasmanian Parks and Wildlife Services.






 

1 comentário:

  1. Prezada Sandra,
    Assim como a atividade humana afeta a biodiversidade, afeta a geodiversidade, uma tão grave quanta a outra. Um exemplo disso que verifiquei ontem ao passar pela área rural de onde vivo foi perceber como a pecuária interferiu na paisagem e nos ecossistemas. Os morros que originalmente eram cobertos pela mata atlântica hoje são área de pasto abandonados, com o solo empobrecido pelo pisoteio do gado. Esse solo mal cresce capim, estando sujeito à erosão e deslizamentos. Temos nesse cenário a alteração da paisagem, das características do solo e das encostas e a consequente perda da biodiversidade.
    Grande Abraço.
    Natalia

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Conservação da Biodiversidade em espaço urbano

Conservação Da Biodiversidade Em Espaço Urbano by sandra on Scribd