«A
geodiversidade encontra-se ameaçada a diversas escalas e em graus distintos.
Podemos assistir desde a degradação da paisagem natural à destruição
circunscrita a um pequeno afloramento» (Brilha, 2005). Os recursos naturais são
reconhecidamente bens importantes que o ser humano utiliza na produção dos mais
variados produtos em benefício próprio. Num mundo cada vez mais industrializado
e povoado, o consumo de recursos processa-se a um ritmo muito elevado e cada
vez mais diversificado, em relação ao passado. Face aos elevados padrões de
consumo e ao crescente desenvolvimento científico e tecnológico, a exploração
dos recursos tem vindo a ser orientada, fundamentalmente, para a utilização
indiscriminada dos recursos naturais e à procura de benefícios a curto e a
médio prazos, políticas conducentes ao rápido esgotamento das reservas ou à
degradação ambiental.
As atividades antrópicas
podem introduzir impactos negativos muito diversificados e significativos nos
ambientes naturais e conduzir a importantes perdas da geodiversidade. A
indústria extrativa pode causar impactes ambientais graves ao nível da paisagem
numa determinada região, designadamente pela acumulação de resíduos,
resultantes de material que não é aproveitado – escombreiras, ou as substâncias
tóxicas que podem contaminar os solos e as águas subterrâneas com metais
pesados, se não forem devidamente tratadas. As crateras resultantes das
explorações abandonadas podem transformar-se em lixeiras e que colocam em
risco a saúde humana. A reabilitação destas áreas torna-se assim indispensável,
com vista a reduzir os impactes nos ecossistemas locais. «Ao nível do
afloramento, a atividade extrativa pode consumir objetos geológicos, como
fósseis ou minerais, de valor científico, pedagógico, (…) danificar ou destruir
formações e estruturas rochosas que tenham, por alguma razão, um valor
particular» (Brilha, 2005). Não obstante, a indústria extrativa pode suscitar
efeitos positivos em relação à geodiversidade «abrindo verdadeiras “janelas”
sobre as rochas da crusta (…) essenciais no estudo de inúmeras ocorrências
geológicas relevantes, até aí desconhecidas» (Brilha, 2005). Pode ainda
verificar-se um aproveitamento sob o ponto de vista turístico ou educativo dos
sítios mineiros, como atualmente se faz no Monte de Santa Luzia, em Viseu, com
a construção do Museu do Quartzo. Porém, a reabilitação ambiental e
paisagística não se estendeu a toda a área envolvente ao Museu. A fotografia
que a seguir se apresenta é da minha autoria, tirada no Monte de Santa Luzia. Expõe
as crateras que ainda permanecem, como resultado da antiga exploração de
quartzo, com inevitáveis problemas que acarreta ao nível da segurança e saúde
públicas, nomeadamente devido à presença de água estagnada.
Outras intervenções podem
ser apontadas como graves ameaças à geodiversidade. A edificação de estruturas
variadas ou a construção de vias de comunicação, desencadeia uma forte pressão
sobre os recursos ambientais. «Não se contesta a necessidade de se construir as
infraestruturas necessárias à melhoria das condições de vida de toda a
sociedade. No entanto, muitas das grandes obras não integram convenientemente,
nos seus estudos de impacte ambiental, a vertente da geodiversidade e, por
conseguinte, não são encontradas as melhores soluções para tentar obviar o
impacte sobre a mesma» (Brilha, 2005).
A ação antrópica intervém ainda nos processos naturais dos rios através, por exemplo, da construção de barragens, que interferem no equilíbrio natural e, em certos casos contribuem para a destruição do património cultural. O comportamento dos rios depende do seu regime hidrológico que, por sua vez, também depende das inter-relações de condições complexas das bacias hidrográficas, nomeadamente o relevo, a composição rochosa ou a cobertura vegetal. Os rios desempenham, ao nível geológico, ações de meteorização e erosão, de transporte e deposição de materiais. As barragens apresentam grandes benefícios, nomeadamente a regularização dos caudais, a produção de energia elétrica ou o abastecimento de água doméstico e agrícola. No entanto, acarretam também muitos inconvenientes, designadamente a retenção de sedimentos a montante, levando à diminuição considerável da quantidade de detritos debitados no mar, ou o impacto negativo nos sistemas aquáticos e terrestres da zona e mesmo a submersão de muitos ecossistemas terrestres, incluindo mesmo povoações habitadas. A construção da barragem do Alqueva, por exemplo, provocou a submersão da Aldeia da Luz, no Alentejo, e introduziu modificações significativas na geodiversidade regional. A fotografia que a seguir se apresenta é da minha autoria, tirada na albufeira do Alqueva, representando a imensidão de área submersa.
Uma outra intervenção
antrópica ao nível dos rios, que pode ter efeitos catastróficos, é a exploração
abusiva de areias e outros materiais do leito ou das margens, cuja exploração
desenfreada pode levar ao desaparecimento de praias fluviais, à instabilidade de
pilares de pontes assentes sob o leito e, consequentemente, ao desmoronamento
dessas pontes. Em Portugal, a queda da ponte de Entre-Os-Rios, em 2001, é um
exemplo ilustrativo deste tipo de consequência. De acordo com o relatório
apresentado pelos peritos, a extração de areias foi a causa principal da queda
da ponte, com vítimas mortais. (www.publico.pt)
As alterações na costa portuguesa decorrentes da intensa erosão costeira, têm na ação humana uma das suas principais causas, relacionadas intrinsecamente com a construção de barragens, por vezes em número considerável, no mesmo curso de água. Antes dessas construções, os sedimentos fluíam para os rios e alimentavam a costa, tornando-a mais vasta e resistente aos avanços do mar e propiciavam igualmente a constituição de diferentes formas de deposição, de que são exemplo, as praias, as ilhas-barreira ou as restingas, cujas singularidades são emblemáticas de certas áreas do litoral. Por exemplo, a deposição de sedimentos na costa algarvia, originou a formação das ilhas-barreira na Ria Formosa, local de elevada riqueza biológica. A fotografia que a seguir se apresenta é da minha autoria, tirada no Parque Natural da Ria Formosa.
As alterações na costa portuguesa decorrentes da intensa erosão costeira, têm na ação humana uma das suas principais causas, relacionadas intrinsecamente com a construção de barragens, por vezes em número considerável, no mesmo curso de água. Antes dessas construções, os sedimentos fluíam para os rios e alimentavam a costa, tornando-a mais vasta e resistente aos avanços do mar e propiciavam igualmente a constituição de diferentes formas de deposição, de que são exemplo, as praias, as ilhas-barreira ou as restingas, cujas singularidades são emblemáticas de certas áreas do litoral. Por exemplo, a deposição de sedimentos na costa algarvia, originou a formação das ilhas-barreira na Ria Formosa, local de elevada riqueza biológica. A fotografia que a seguir se apresenta é da minha autoria, tirada no Parque Natural da Ria Formosa.
A orla costeira tem estado
sujeita a inúmeras formas de intervenção humana, desde a extração de areias à
crescente urbanização e que têm contribuído para a degradação das paisagens litorais.
Nos últimos anos, perante as fortes investidas do mar sobre estas áreas, tem-se
verificado a construção de obras de proteção do litoral, como os esporões ou os
quebra-mares, de que é exemplo, a intervenção realizada na Costa da Caparica e
que se traduziu em avultados custos económicos. A fotografia que a seguir se
apresenta é da minha autoria, tirada na Costa da Caparica e retrata as
intervenções realizadas na área costeira.
Contudo, estas obras de
intervenção ao invés de solucionarem os problemas resultantes do avanço do mar,
apenas os têm agravado ou deslocado para outros locais.
O desenvolvimento do
turismo e outras atividades recreativas e de lazer, especialmente nos ambientes
naturais, permitem o conhecimento e a valorização das regiões no que elas têm
de mais genuíno e particular. Contudo, estas atividades comportam também alguns
riscos que são necessários precaver, garantindo a preservação dos valores
ambientais e a manutenção do equilíbrio natural.
Segundo Brilha, outras ameaças são apontadas à geodiversidade,
nomeadamente a recolha de amostras para fins não científicos ou a iliteracia
cultural.
Segundo Sharples (2002), citado por Brilha (2005) «a geoconservação tem
como objetivo a preservação da diversidade natural (ou geodiversidade) de
significativos aspetos e processos geológicos (substrato), geomorfológicos
(formas de paisagem) e de solo, mantendo a evolução natural (velocidade e
intensidade) desses aspetos e processos», ainda que a sua definição não seja
consensual. «A Geoconservação, em sentido amplo, tem como objetivo a utilização
e a gestão sustentável de toda a geodiversidade, englobando todo o tipo de
recursos geológicos. Em sentido restrito, entende apenas a conservação de
certos elementos da geodiversidade que evidenciem um qualquer tipo de valor
superlativo» (Brilha, 2005). «Geoconservation
is an essential basis for bioconservation, as geodiversity provides the variety
of environments and environmental pressures which directly influence
biodiversity. The degradation of landforms, soils and waters will adversely impacto
on the biological species and communities living in or them » (Sharples,
2002).
Os elementos geológicos que possuam singular valor, os chamados
geossítios, constituem o designado Património Geológico, que importa
referenciar e preservar, ou seja, a variedade de ambientes, fenómenos e
processos geológicos que originaram as paisagens, rochas, minerais ou solos,
que nos permitem conhecer a história geológica da Terra e que constituem o
suporte da biodiversidade. «Actual
geoscientists must assume the social responsability of ensuring the
conservation of this natural heritage as of paramount importance for the
advancement of geosciences and for the knowledge of planet Earth» (Brilha,
2016). A geoconservação constitui, hoje, uma das especialidades fundamentais, dado
que os elementos excecionais da geodiversidade enfrentam diversos tipos de
ameaças resultantes, quer de processos naturais, quer de intervenções humanas
que, reconhecidamente, urge conservar.
«The inventory and quantitative
assessement of the most valuable occurrences of geodiversity are essential
steps in any geoconservation strategy and in the establishment of priorities in
site management. (…) the criteria
used for their selection are often unclear
and poorly defined» (Brilha, 2016).
O inventário nacional do património geológico reúne os principais locais
em Portugal (geossítios) onde ocorrem elementos da geodiversidade (minerais,
fósseis, rochas) com elevado valor científico, resultante de um vasto projeto
de investigação. Este inventário não inclui o património geológico ex-situ que é constituído por amostras
geológicas e paleontológicas de elevado valor científico, habitualmente
disponíveis em coleções museológicas. (Património Geológico de Portugal). Esta
opção enquadra-se claramente num modelo de desenvolvimento sustentável, baseado
no conhecimento como meio condutor à geoconservação. Além desta iniciativa de
excelência, os regulamentos normativos constituem igualmente instrumentos
fundamentais que, através da definição dos condicionamentos, vocações ou usos
dominantes, contribuem para a preservação e valorização ambiental e, por
conseguinte, para a geoconservação. São exemplo, os Planos Especiais de
Ordenamento do Território, que são instrumentos regulamentares que estabelecem regimes
de salvaguarda de recursos e valores naturais, onde se incluem os Planos de
Ordenamento da Orla Costeira (POOC) ou os Planos de Ordenamento de Áreas
Protegidas (POAP). Com a ajuda destes documentos orientadores procura-se
assegurar regiões que apresentam mais-valias ao nível ambiental, contribuindo
assim para o seu desenvolvimento equilibrado e responsável. «The United Nations is also deeply involved
in international conservation mainly through its Educational, Scientific and
Cultural Organisation (UNESCO) and its Environment Programme (UNEP)» (Gray,
2004).
Face ao exposto, as respostas aos problemas e desafios atuais deverão ser encontradas num
crescimento económico racional e não num crescimento económico meramente
quantitativo e de delapidação do meio ambiente e dos recursos ambientais. A
concretização desta linha de orientação exige estratégias de ação e de educação
ambiental que promovam a informação e sensibilização dos cidadãos, mobilizando
igualmente os governos e o setor empresarial para a chamada “consciência
ecológica”. A responsabilização individual e coletiva, no seu conjunto,
promoverão a expectável transição para um modelo de desenvolvimento mais
sustentável dos territórios.
-
Brilha, J. (2005). Património Geológico e Geoconservação. Braga: Palimago.
-
Brilha, J. (2016). Inventory and Quantitative Assessment of Geosites and
Geodiversity Sites: a Review. - Gray, M. (2004). Geodiversity: valuing and conserving abiotic nature. Chichester: John Wiley & Sons Ltd.
- Sharples (2002). Concepts and Principles of Geoconservation. Tasmanian Parks and Wildlife Services.


