A biodiversidade é uma das propriedades fundamentais da Natureza, responsável
pelo equilíbrio e estabilidade dos ecossistemas. Um dos problemas associados
aos processos de avaliação da biodiversidade é o facto do termo ser entendido
de forma tão diversa consoante o grupo profissional ou social que o interpreta
(Araújo, 1998). De facto, o conceito apresenta uma tamanha abrangência que a
definição, quantificação e respetiva avaliação têm sido amplamente debatidas, com
o surgimento de diversas metodologias de avaliação conducentes à formalização
do conceito de biodiversidade.
Em Ecologia das Comunidades o conceito de diversidade tem sido associado
a dois componentes distintos: riqueza e equitabilidade. Riqueza e equitabilidade
representam dois extremos do mesmo conceito dando a primeira medida mais peso
relativo às espécies raras e a segunda maior ponderação às espécies comuns
(Araújo, 1998). Para os taxonomistas quantificar a biodiversidade é definir
grupos de organismos biológicos com base em características comuns e para os
conservacionistas consiste em atribuir valor ao que é raro. Este conceito de
raridade, para a biologia apresenta utilidade na medida em que pode fornecer uma
aproximação do grau de vulnerabilidade (ou ameaça) da espécie a processos de
extinção. Contudo, é um conceito limitativo na medida em que uma determinada
espécie pode estar confinada a uma determinada área geográfica e ser bastante abundante no que respeita à
utilização do seu habitat. O conceito
de vulnerabilidade encontra-se, geralmente, associado a fatores externos a um
sistema biológico, sendo o caso clássico de projetos de alterações de habitat, poluição e qualquer outra forma
de perturbação antrópica com efeitos nocivos para os taxa ou biótipos considerados (Araújo, 1998).
Não obstante a essas múltiplas
perceções associadas ao conceito de biodiversidade, esta corresponde ao termo
que designa a quantidade e a variabilidade de organismos vivos dentro de uma
espécie (diversidade genética), entre espécies e entre ecossistemas (A Economia
dos Ecossistemas e da Biodiversidade - TEEB, 2008, versão PT), abrangendo a
diversidade: genética, que traduz a variedade de material genético dentro de uma
espécie ou de uma população; diversidade de espécies, que corresponde ao número
de espécies presentes nos diferentes habitats;
diversidade ecológica, que traduz a diversidade de ecossistemas terrestres e
aquáticos existentes numa determinada área geográfica ou mesmo na Terra e
diversidade funcional, correspondendo aos processos químicos e biológicos como
os fluxos de energia e o ciclo da matéria necessários à sobrevivência de espécies,
comunidades e ecossistemas. (Miller, 2005)
Fonte: Miller, Tyler (2005) – Living in the
environment, p.79
A riqueza de um ecossistema de organismos vivos é considerada fundamental
na regulação dos solos, na fertilidade e no equilíbrio climático, bem como no
fornecimento dos recursos genéticos e dos seus produtos como a alimentação,
farmácia, química, vestuário, entre muitos outros.
Os ecossistemas funcionam e têm vitalidade com base numa cadeia de
interações que, se forem interrompidas, põem em causa o seu equilíbrio. As
causas da degradação incessante dos ecossistemas naturais que atentam contra a
biodiversidade têm promovido uma acentuada perda da mesma. “Across
a range of taxonomic groups, the populations size or range (or both) of the
majority of species is declining. Studies of amphibians globally, African
mammals, birds in agricultural lands, British butterflies, Caribbean and
Pacific corals, and commonly harvested fish species show declines in population
of the majority of species. (Millennium Ecosystem Assessemente, 2005).
Admite-se que a diminuição da biodiversidade seja devido à destruição progressiva
dos meios onde habitam os organismos vivos, em associação a um ritmo acelerado
no crescimento demográfico, particularmente no período subsequente à segunda
metade do século XX. “The fundamental reason for the degradation
and loss of habitat is the explosive growth of the human population.
Since 1900 the world's population has more than tripled. Since 1950 it has more
than doubled, to 6 billion. Every year 90 million more people (…) are added to
the planet. All of these people need places to live, work and play, and they
all contribute to habitat loss and global pollution” (Bryan, P. 2005).
Fonte:
Fonte: Miller, Tyler (2005) – Living in the environment, p.5
Cada indivíduo (ou população) está habituada a um “modo de vida”
particular, designado por nicho ecológico, enquadrado num certo habitat onde possui os elementos necessários
à sua sobrevivência. Inclui quer os fatores físicos como, por exemplo, a
humidade, a temperatura, quer os fatores biológicos como o alimento e os seres
que se alimentam desse indivíduo.
O ser humano tem aumentado a vulnerabilidade das espécies relativamente
ao seu habitat natural. Como
principais ameaças à biodiversidade encontram-se a destruição, alteração e
degradação de habitats selvagens,
particularmente na reconversão de áreas para a agricultura, a sobreexploração
de recursos (especialmente pesca excessiva de algumas espécies), a introdução,
deliberada ou acidental, de espécies invasoras, a interferência do ser humano
nos ciclos químicos ou nos fluxos de energia dos ecossistemas, a poluição e as
alterações climáticas com origem antrópica (Millennium Ecosystem Assessemente,
2005).
As espécies e os
ecossistemas estão hoje sujeitos a perigos mais significativos do que em qualquer
outra época histórica, tendo aumentado o número de espécies ameaçadas. Os
chamados hotspots, ou “pontos
críticos”, de biodiversidade correspondem a regiões biogeográficas que são
simultaneamente uma reserva de biodiversidade, uma vez que são áreas mais ou
menos circunscritas e que contêm um grande número de plantas endémicas e
espécies animais, e que ao mesmo tempo se encontram ameaçadas. (Myers, 1996).
Assim, a facilidade de se adaptar
às mudanças é diferente de espécie para espécie e muitas espécies são mais
vulneráveis que outras, já que dependem de um habitat bem definido e com necessidades bem específicas.
As ameaças à
biodiversidade foram já diagnosticadas na Convenção sobre Diversidade Biológica
(CDB) que decorreu durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio
Ambiente e Desenvolvimento, em 1992, no Rio de Janeiro. A Convenção procurou
estimular, acima de tudo, a compatibilização entre a proteção dos recursos
biológicos e o desenvolvimento social e económico. Como estratégias de conservação,
salienta-se a elaboração e consecução de programas inovadores de conservação de
recursos ex situ and in situ , a restauração de ecossistemas,
a definição de áreas protegidas, a educação ambiental, assim como o
estabelecimento de acordos e cooperação internacionais e a gradual adaptação às
alterações climáticas (Millennium
Ecosystem Assessemente, 2005).
Biodiversity loss is importante in
its own right because biodiversity has cultural values, because many people
ascribe intrinsic value to biodiversity, and because it represents unexplored
options for the future (options values) (Millennium Ecosystem Assessemente,
2005). Subjacente ao desenvolvimento sustentável deve estar a resiliência,
consistindo igualmente em assegurar a capacidade dos ecossistemas de absorverem
os impactes relacionados com as perturbações externas, sem que estes sejam
alterados.
Biodiversidade em Espaços Urbanos
Biodiversidade em Espaços Urbanos
A componente ambiental é um importante indicador da qualidade de vida
urbana. A grande concentração populacional e de atividades económicas, os
transportes e o modo de vida urbano, fazem das cidades os principais
consumidores de recursos naturais e de energia e os maiores produtores de
resíduos, pelo que exercem uma forte pressão sobre os ecossistemas. A falta de
planeamento das cidades traduz-se muitas vezes na destruição e/ou não
planificação de espaços verdes. Dadas as alterações e influências negativas que
a intensificação da edificação provoca no clima urbano, uma das importantes
funções da vegetação consiste no controlo do microclima, contribuindo para a
sua amenização, controlo da humidade e das radiações solares, na absorção de CO2
e aumento do teor em oxigénio e na proteção contra a erosão.
Muitas cidades em todo o mundo em desenvolvimento, especialmente na Ásia
e nos Estados Árabes, estão a criar novos parques para ir ao encontro dos
padrões internacionais de áreas verdes/per
capita, ou seja, de oito metros quadrados por pessoa (State of the World´s Cities 2012/2013, Prosperity os Cities, 2013).
Estas iniciativas contribuem para um ambiente mais limpo e para melhorar a
qualidade de vida urbana.
Parque Nacional da Quiçama
Parque Nacional da Quiçama
O Parque Nacional da Quiçama, enquadra-se na rede das áreas protegidas,
cujo objetivo é a preservação e valorização de espécies e habitats naturais. Contém
importantes elementos de biodiversidade, da fauna e flora selvagens, com valor
científico e ecológico que, de forma inequívoca, merecem proteção e
conservação.
O Parque Nacional da Quiçama ocupa uma área de 9.600 km² e é considerado
um dos símbolos naturais de Angola. Está localizado na província de Luanda e
ascendeu à categoria de Parque Nacional em 1957, como resposta às evidentes
necessidades de preservação dos ecossistemas. Durante os anos da guerra civil
(1975-2002), a Quiçama ficou ao abandono e a vida selvagem característica foi praticamente
extinta. Terminado o conflito armado, as autoridades delinearam um projeto de
recuperação, repovoando o território com animais trazidos do Botsuana e da África
do Sul.
A vegetação varia muito das
margens do Rio Kwanza ao interior do Parque: manguezais, mata densa, savana,
árvores dispersas, catos, imbondeiros, bem como de uma fauna igualmente abundante e variada: elefantes, zebras, girafas, macacos, manatins africanos, palancas vermelhas e uma grande variedade de aves, entre muitos outros.
As imagens que a seguir se apresentam são da minha autoria. Recolhidas no Parque Nacional da Quiçama em 2016.
Bibliografia:
- Araújo, M. (1998) “Avaliação
da Biodiversidade em Conservação”. Silva Lusitana 6 (1). Lisboa.
- Millennium Ecosystem Assessment, 2005. Ecosystems and Human
Well-being: Biodiversity Synthesis. World Resources Institute, Washington,
DC.
- A Economia dos
ecossistemas e da biodiversidade – TEEB(2008).
- Wilson, E.O. (1988) “ The current state of biological
diversity”. In Biodiversity. National
Academy Press, USA.
- Bryant, P.J. (2005) Capítulo 1 e 2. In Biodiversity and
Conservation- a hypertext book.
- Miller, G. Tyler & Spoolman, Scott
(2005)”Living in the Environment: Concepts, Connections, and
Solutions”, Brooks/Cole, Belmont.
- Myers, N. (1996) “The rich diversity of biodiversity
issues”.
- State of the World´s Cities 2012/2013, Prosperity os
Cities, 2013, Routledge, New York.
- http://www.redeangola.info/roteiros/parque-nacional-da-kissama/














