«A utilização do termo
geodiversidade é relativamente recente (…) e tanto o termo como o conceito de
geodiversidade não apresentam ainda uma implantação sólida, mesmo entre a
comunidade geológica» (Brilha, 2005). De acordo com Gray (2004), citado por
Brilha (2005) «o termo surgiu por ocasião da Conferência de Malvern sobre
Conservação Geológica e Paisagística, realizada em 1993 no Reino Unido.» O
conceito tem sido definido por inúmeros autores estando, todavia, longe de ser
consensual. «Enquanto que para alguns a geodiversidade se limita ao conjunto de
rochas, minerais e fósseis, para outros o conceito é mais alargado integrando
mesmo as comunidades de seres vivos» (Brilha, 2005). «Some of the first uses appear to have been in Tasmania, Australia.
Kevin Kiernan was using the terms “landform diversity” and “geomorphic
diversity in the 1980s and drawing analogies with biological concepts by using
terms such as “landform species” and “landform communities”» (Gray, 2004). Segundo
a definição apresentada pela Royal
Society for Nature Conservation do Reino Unido, a geodiversidade consiste na variedade de ambientes geológicos,
fenómenos e processos ativos que dão origem a paisagens, rochas, minerais,
fósseis, solos e outros depósitos superficiais que são o suporte para a vida na
Terra. «Assim, a geodiversidade compreende apenas os aspetos não vivos do
nosso planeta. E não apenas os testemunhos provenientes de um passado geológico
mas também os processos naturais que atualmente decorrem dando origem a novos
testemunhos» (Brilha, 2005). «However,
geoconservation does not focus solely on the importance of non-living things in
conserving biological systems, bu tis also based on the premise that
geodiversity has important conservation values of its own, independent of any
role in sustaining living things» (Sharples, 2002).
A geodiversidade determinou
ao longo do tempo a ocupação humana das áreas à superfície terrestre e as atividades
humanas têm sido condicionadas pela riqueza e diversidade dos materiais
geológicos. Desde a fixação humana em áreas com condições climáticas e de
relevo mais favoráveis, passando pelas mais variadas utilizações de recursos
geológicos, como fontes energéticas, água, minerais metálicos e não metálicos,
aos produtos consumidos e que são fabricados com materiais extraídos da Terra.
A biodiversidade é determinada pela geodiversidade, na medida em que os seres
vivos dependem do ambiente físico-químico para a sua sobrevivência e dependem
de condições abióticas indispensáveis à sua continuidade. As plantas, por
exemplo, captam do solo grande parte dos seus nutrientes e algumas espécies só
subsistem mesmo com as características particulares do seu habitat, de que é exemplo a Welwitschia
mirabilis, encontrada somente no deserto do Namibe, em Angola. As fotos que a
seguir se apresentam são da minha autoria, tiradas no deserto do Namibe em 2016.
«A geodiversidade resulta de uma multiplicidade de fatores e da relação
entre eles. (…). Os primeiros responsáveis pela geodiversidade são os pouco
mais de 90 elementos químicos (…). Na Natureza, quando os elementos químicos se
ligam entre si originam moléculas que, por sua vez, dão origem a diversos tipos
de substâncias/produtos. Os minerais são desses produtos» (Brilha, 2005). Geologicamente,
os minerais são corpos sólidos, com estrutura cristalina, naturais e inorgânicos
e com composição definida ou variável dentro de certos limites. A composição
química e a organização estrutural da matéria cristalina conferem aos minerais
determinadas propriedades físicas e químicas que facilitam a sua identificação,
designadamente dureza, cor, brilho, clivagem, entre outros. «Rocks are a natural aggregation of minerals
and fall into three groups – igneous, metamorphic and sedimentar – each of
which has its own incredible diversity» (Gray, 2004). Atendendo às
características e às condições que presidiram à sua génese, os diferentes tipos
de rochas assumem diferentes aspetos na paisagem.
No decurso do tempo múltiplos fenómenos afetaram a Terra, modificando as
suas paisagens, onde ocorreram alterações climáticas, os continentes e os
oceanos modificaram as suas posições e ocorrência de intensa atividade
vulcânica e sísmica.«In addition, the
history of life on Earth is punctuated by five major massive extinctions and
several smaller events during which a significant proportion of living forms
disappeared within a brief period in geological terms» (Gray, 2004). O
conhecimento e compreensão dos processos e dos materiais geológicos é assim essencial
na definição de regras de ocupação e ordenamento dos territórios, que assentem
na redução ou eliminação dos riscos geológicos e/ou geomorfológicos associados. «Geological research has also enabled the reconstruction of the changing
geography of the planet as the supercontinente of Pangea initially fractured
and then drifted apart on huge tectonic plates driven by mantle convection
currents. Research has demonstrated the close link between tectonic plates
margins and volcanic and earthquake activity, and study of the pattern of past
natural hazards help us to predict the location and timing of future disasters»
(Gray, 2004).
Fonte: Miller, Tyler (2005) – Living in the
environment, p.85
Estas modificações geológicas, geográficas e biológicas estão registadas
e preservadas nas rochas que se formaram ao longo dos períodos da história da
Terra. As rochas geradas por processos naturais muito antigos, são assim
testemunhos das condições em que se originaram e contêm informações cuja
leitura e interpretação permitem compreender a complexa história evolutiva até
ao presente. «The fossil record contained
in the rocks the evolution of species from the simplest unicellular organisms
to the early history of humans» (Gray, 2004). Segundo Wiedenbein (1994), citado por Gray (2004) «Fossils are not
only records of evolution … they also allow us to have a look at the
construction of living matter of past biospheres».
As rochas estão sujeitas a múltiplos processos e experimentam profundas
e complexas transformações após a sua génese, em consequência de intensas
forças que sobre elas atuam. Como consequência da dinâmica da litosfera,
originam-se forças tectónicas que tendem a produzir a deformação dos materiais
rochosos e traduz-se pelo aparecimento de estruturas geológicas como falhas e
dobras. Quando expostas à ação de agentes externos e variados, tais como a
água, o vento, as mudanças de temperatura e os próprios seres vivos, sofrem
alterações físicas e químicas, fenómeno designado por meteorização. Em
consequência da meteorização, as rochas vão sendo alteradas e desagregadas, em
que os materiais resultantes podem ficar acumulados no local de origem ou serem
removidos, quer por ação da gravidade quer pela água, pelo vento ou pelo gelo e
ainda, no decurso do transporte, os materiais experimentam sucessivas
alterações.
«A geodiversidade manifesta-se ainda como resultado da existência de
seres vivos que evoluíram ao longo de milhões de anos e cujas evidências
ficaram preservadas nas rochas. Os fósseis, essenciais ao conhecimento da
biodiversidade do nosso planeta, são também elementos intrínsecos da
geodiversidade. Finalmente, os solos, cuja formação está intimamente
relacionada com a alteração das rochas e com a presença de matéria orgânica,
estabelecem uma ponte perfeita entre a geo e a biodiversidade» (Brilha, 2005). As
rochas e os solos servem de suporte a grande parte das formas da vida
terrestre, fornecendo muitos dos materiais necessários à manutenção dessas
formas de vida, numa interação contínua com os diferentes subsistemas. Os seres
vivos existentes num determinado espaço, dependem das condições do meio para a
sua sobrevivência, contudo, exercem do mesmo modo importantes influências sobre
esse meio, mantendo-se num delicado equilíbrio. A riqueza e diversidade das
paisagens naturais resulta da combinação de todos estes fatores e,
inequivocamente, são um dos principais elementos a considerar na geodiversidade.
“ Em todas as paisagens naturais existe, obviamente, o contributo dado pela
biodiversidade. Mas não pode esquecer-se que são o tipo de substrato, o relevo
e o clima que determinam a biodiversidade. De acordo com Stanley (2002), citado
por Gray (2004) «biodiversity is part of geodiversity.»
«Quando características particulares de uma paisagem são determinantes
para o desenvolvimento de atividades humanas, ou quando estas atividades conseguem
imprimir uma marca particular à paisagem natural, fala-se de paisagens
culturais. É o exemplo da região do Alto Douro Vinhateiro, inscrito na
categoria de Paisagens Culturais na Lista de Património Mundial da UNESCO»
(Brilha, 2005).
Fonte: Alto Douro Vinhateriro
acedido em 19 de novembro de 2017
A geodiversidade em Portugal é reconhecidamente marcada por paisagens
muito diversificadas, num território de reduzida dimensão. A obra de Orlando
Ribeiro, “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”
constitui uma síntese pormenorizada da diversidade das paisagens portuguesas e
da indissociabilidade entre as condições físicas do meio e as sociais. Trata-se
de uma obra que, detalhadamente, apresenta a descrição das paisagens naturais
portuguesas, articulando a Geografia Física de Portugal com a sua Geografia Humana.
«É preciso considerar a persistência das condições naturais e a continuidade do
esforço humano para compreender as gentes e os lugares. (…) Nesta mistura de
gente e de plantas, assim como na variedade das regiões. Áreas muito próximas e
muito diferentes. (…) Portugal é mediterrâneo por natureza, atlântico por
posição». (Ribeiro, 1945).
«De todos os valores que se atribuem à geodiversidade, o intrínseco é,
provavelmente, o mais subjetivo. Esta subjetividade advém da dificuldade de
quantificação deste valor (…). Há quem defenda que a Natureza deve estar à
disposição dos seres humanos, a fim de satisfazer as suas necessidades, (…)
outros há que, pelo contrário, consideram que o Homem é parte integrante da
Natureza, fazendo com que esta possua um valor próprio» (Brilha, 2005).
De acordo com Woodcock (1994), citado por Gray (2004) «rocks, minerals, sediment, soil and even fossils,
all have economic value, though this varies depending on the nature of the
material involved. (…) The usual
classification of economic mineral resources is into mineral fuels, industrial,
metallic and precious minerals and construction minerals, but the economic
value of the abiotic environment should also include fossils, other forms of
energy and indeed soil and landscape resources.» Uma
das aplicações mais visíveis das rochas e da sua importância como recurso é a
sua utilização na construção civil e na pavimentação, de que são exemplo, os vastíssimos
monumentos portugueses, de beleza e singularidade ímpares, e que foram
edificados aproveitando rochas abundantes na região e que, a par do valor
económico, reúnem reconhecidamente um valor cultural, estético e educativo, imensuráveis.
Functional
value (…) is clear that soils,
sediments, landsforms and rocks all have a functional role in environmental
systems, both physical and biological (Gray, 2004).
A intervenção antrópica nos
subsistemas terrestres é atualmente tão intensa que tem conduzido a uma
progressiva degradação ambiental, gerando perturbações nos diversos ambientes naturais.
Decorrente não só do elevado consumo de recursos naturais que sustentam todas
as atividades humanas, mas igualmente do aumento da poluição que resulta da
exploração e utilização desenfreada desses recursos. A poluição introduz
alterações indesejáveis ao nível dos diferentes subsistemas terrestres, suscetíveis
de prejudicarem a qualidade do ambiente e a saúde humana. Os efeitos da
poluição têm impactos a nível local, especialmente em áreas densamente povoadas,
ou a nível mundial, afetando o equilíbrio global da Terra.
«A geodiversidade encontra-se ameaçada a diversas escalas e em graus
distintos. Podemos assistir desde a degradação da paisagem natural à destruição
circunscrita a um pequeno afloramento» (Brilha, 2005).
A implementação de estratégias que permitam a conservação de elementos
geológicos que possuem inegável valor científico, educativo, cultural, funcional
e económico, os chamados geossítios, são escolhas que se enquadram numa
perspetiva de promoção do desenvolvimento sustentável. «The GEOSITES project was an initiative of the International Union of
Geological Sciences and is designed to support identification of geological areas
(sites) of international importance ( Recommendation
on conservation of the geological heritage and areas of special geological
interest).» Dado o interesse destas
estruturas impõe-se, assim, a necessidade de as conservar, através de uma
utilização e gestão sustentável da geodiversidade, assegurando uma exploração
sustentada dos recursos geológicos, num modelo global que permita às gerações
atuais a satisfação das suas necessidades sem comprometerem a possibilidade das
gerações vindouras satisfazerem as suas próprias. «É cada vez mais urgente
consciencializar o cidadão do lugar que ocupa na bio e na geodiversidade e do
modo como melhor se articular com elas, no respeito pelo equilíbrio ambiental,
pela melhoria da qualidade de vida e pela preservação do património a legar aos
vindouros» (Brilha, 2005). De acordo com Baba Dioum, citado por Gray (2004)
«For in the end we will conserve only
what we love.
We will love only what we understand.
And we will understand only
what we are taught.»
Referências bibliográficas:
- Alto Douro Vinhateriro in http://www.lisbonne-idee.pt/p2954-alto-douro-vinhateiro-patrimonio-mundial-anos.html, acedido em 19 de novembro de 2017.
- Brilha, J. (2005). Património Geológico e Geoconservação, pp. 17-40. Braga: Palimage.
-
Gray, M. (2004). Geodiversity: valuing and conserving abiotic nature.
Chichester: John Wiley & Sons Ltd. - Alto Douro Vinhateriro in http://www.lisbonne-idee.pt/p2954-alto-douro-vinhateiro-patrimonio-mundial-anos.html, acedido em 19 de novembro de 2017.
- Brilha, J. (2005). Património Geológico e Geoconservação, pp. 17-40. Braga: Palimage.
- Miller, G. Tyler & Spoolman, Scott (2005)”Living in the Environment: Concepts, Connections, and Solutions”, Brooks/Cole, Belmont.
- Recommendation Rec(2004)3 on conservation of the geological heritage and areas of special geological interest. Committee of Ministers on 5 May 2004 at the 883rd meeting of the Ministers’ Deputies.
- Ribeiro, O. (1945). Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Coimbra Editora Limitada, in https://archive.org/details/OrlandoRibeiroPortugalOMediterraneoEOAtlantico, acedido em 19 de novembro de 2017.
- Sharples (2002). Concepts and Principles of Geoconservation. Tasmanian Parks and Wildlife Services.


