domingo, 29 de outubro de 2017

Biodiversidade. Conceitos e valores

A biodiversidade é uma das propriedades fundamentais da Natureza, responsável pelo equilíbrio e estabilidade dos ecossistemas. Um dos problemas associados aos processos de avaliação da biodiversidade é o facto do termo ser entendido de forma tão diversa consoante o grupo profissional ou social que o interpreta (Araújo, 1998). De facto, o conceito apresenta uma tamanha abrangência que a definição, quantificação e respetiva avaliação têm sido amplamente debatidas, com o surgimento de diversas metodologias de avaliação conducentes à formalização do conceito de biodiversidade.
Em Ecologia das Comunidades o conceito de diversidade tem sido associado a dois componentes distintos: riqueza e equitabilidade. Riqueza e equitabilidade representam dois extremos do mesmo conceito dando a primeira medida mais peso relativo às espécies raras e a segunda maior ponderação às espécies comuns (Araújo, 1998). Para os taxonomistas quantificar a biodiversidade é definir grupos de organismos biológicos com base em características comuns e para os conservacionistas consiste em atribuir valor ao que é raro. Este conceito de raridade, para a biologia apresenta utilidade na medida em que pode fornecer uma aproximação do grau de vulnerabilidade (ou ameaça) da espécie a processos de extinção. Contudo, é um conceito limitativo na medida em que uma determinada espécie pode estar confinada a uma determinada área geográfica e ser bastante abundante no que respeita à utilização do seu habitat. O conceito de vulnerabilidade encontra-se, geralmente, associado a fatores externos a um sistema biológico, sendo o caso clássico de projetos de alterações de habitat, poluição e qualquer outra forma de perturbação antrópica com efeitos nocivos para os taxa ou biótipos considerados (Araújo, 1998).

 Não obstante a essas múltiplas perceções associadas ao conceito de biodiversidade, esta corresponde ao termo que designa a quantidade e a variabilidade de organismos vivos dentro de uma espécie (diversidade genética), entre espécies e entre ecossistemas (A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade - TEEB, 2008, versão PT), abrangendo a diversidade: genética, que traduz a variedade de material genético dentro de uma espécie ou de uma população; diversidade de espécies, que corresponde ao número de espécies presentes nos diferentes habitats; diversidade ecológica, que traduz a diversidade de ecossistemas terrestres e aquáticos existentes numa determinada área geográfica ou mesmo na Terra e diversidade funcional, correspondendo aos processos químicos e biológicos como os fluxos de energia e o ciclo da matéria necessários à sobrevivência de espécies, comunidades e ecossistemas. (Miller, 2005)

Fonte: Miller, Tyler (2005) – Living in the environment, p.79

A riqueza de um ecossistema de organismos vivos é considerada fundamental na regulação dos solos, na fertilidade e no equilíbrio climático, bem como no fornecimento dos recursos genéticos e dos seus produtos como a alimentação, farmácia, química, vestuário, entre muitos outros.
Os ecossistemas funcionam e têm vitalidade com base numa cadeia de interações que, se forem interrompidas, põem em causa o seu equilíbrio. As causas da degradação incessante dos ecossistemas naturais que atentam contra a biodiversidade têm promovido uma acentuada perda da mesma.  “Across a range of taxonomic groups, the populations size or range (or both) of the majority of species is declining. Studies of amphibians globally, African mammals, birds in agricultural lands, British butterflies, Caribbean and Pacific corals, and commonly harvested fish species show declines in population of the majority of species. (Millennium Ecosystem Assessemente, 2005).
Admite-se que a diminuição da biodiversidade seja devido à destruição progressiva dos meios onde habitam os organismos vivos, em associação a um ritmo acelerado no crescimento demográfico, particularmente no período subsequente à segunda metade do século XX.  “The fundamental reason for the degradation and loss of habitat is the explosive growth of the human population. Since 1900 the world's population has more than tripled. Since 1950 it has more than doubled, to 6 billion. Every year 90 million more people (…) are added to the planet. All of these people need places to live, work and play, and they all contribute to habitat loss and global pollution” (Bryan, P. 2005).


Fonte: Fonte: Miller, Tyler (2005) – Living in the environment, p.5

Cada indivíduo (ou população) está habituada a um “modo de vida” particular, designado por nicho ecológico, enquadrado num certo habitat onde possui os elementos necessários à sua sobrevivência. Inclui quer os fatores físicos como, por exemplo, a humidade, a temperatura, quer os fatores biológicos como o alimento e os seres que se alimentam desse indivíduo.
O ser humano tem aumentado a vulnerabilidade das espécies relativamente ao seu habitat natural. Como principais ameaças à biodiversidade encontram-se a destruição, alteração e degradação de habitats selvagens, particularmente na reconversão de áreas para a agricultura, a sobreexploração de recursos (especialmente pesca excessiva de algumas espécies), a introdução, deliberada ou acidental, de espécies invasoras, a interferência do ser humano nos ciclos químicos ou nos fluxos de energia dos ecossistemas, a poluição e as alterações climáticas com origem antrópica (Millennium Ecosystem Assessemente, 2005).

As espécies e os ecossistemas estão hoje sujeitos a perigos mais significativos do que em qualquer outra época histórica, tendo aumentado o número de espécies ameaçadas. Os chamados hotspots, ou “pontos críticos”, de biodiversidade correspondem a regiões biogeográficas que são simultaneamente uma reserva de biodiversidade, uma vez que são áreas mais ou menos circunscritas e que contêm um grande número de plantas endémicas e espécies animais, e que ao mesmo tempo se encontram ameaçadas. (Myers, 1996).
  Assim, a facilidade de se adaptar às mudanças é diferente de espécie para espécie e muitas espécies são mais vulneráveis que outras, já que dependem de um habitat bem definido e com necessidades bem específicas.
As ameaças à biodiversidade foram já diagnosticadas na Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) que decorreu durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1992, no Rio de Janeiro. A Convenção procurou estimular, acima de tudo, a compatibilização entre a proteção dos recursos biológicos e o desenvolvimento social e económico. Como estratégias de conservação, salienta-se a elaboração e consecução de programas inovadores de conservação de recursos ex situ and in situ , a restauração de ecossistemas, a definição de áreas protegidas, a educação ambiental, assim como o estabelecimento de acordos e cooperação internacionais e a gradual adaptação às alterações climáticas  (Millennium Ecosystem Assessemente, 2005).
Biodiversity loss is importante in its own right because biodiversity has cultural values, because many people ascribe intrinsic value to biodiversity, and because it represents unexplored options for the future (options values) (Millennium Ecosystem Assessemente, 2005). Subjacente ao desenvolvimento sustentável deve estar a resiliência, consistindo igualmente em assegurar a capacidade dos ecossistemas de absorverem os impactes relacionados com as perturbações externas, sem que estes sejam alterados.

Biodiversidade em Espaços Urbanos

A componente ambiental é um importante indicador da qualidade de vida urbana. A grande concentração populacional e de atividades económicas, os transportes e o modo de vida urbano, fazem das cidades os principais consumidores de recursos naturais e de energia e os maiores produtores de resíduos, pelo que exercem uma forte pressão sobre os ecossistemas. A falta de planeamento das cidades traduz-se muitas vezes na destruição e/ou não planificação de espaços verdes. Dadas as alterações e influências negativas que a intensificação da edificação provoca no clima urbano, uma das importantes funções da vegetação consiste no controlo do microclima, contribuindo para a sua amenização, controlo da humidade e das radiações solares, na absorção de CO2 e aumento do teor em oxigénio e na proteção contra a erosão.
Muitas cidades em todo o mundo em desenvolvimento, especialmente na Ásia e nos Estados Árabes, estão a criar novos parques para ir ao encontro dos padrões internacionais de áreas verdes/per capita, ou seja, de oito metros quadrados por pessoa (State of the World´s Cities 2012/2013, Prosperity os Cities, 2013). Estas iniciativas contribuem para um ambiente mais limpo e para melhorar a qualidade de vida urbana.

Parque Nacional da Quiçama 

O Parque Nacional da Quiçama, enquadra-se na rede das áreas protegidas, cujo objetivo é a preservação e valorização de espécies e habitats naturais.  Contém importantes elementos de biodiversidade, da fauna e flora selvagens, com valor científico e ecológico que, de forma inequívoca, merecem proteção e conservação.
O Parque Nacional da Quiçama ocupa uma área de 9.600 km² e é considerado um dos símbolos naturais de Angola. Está localizado na província de Luanda e ascendeu à categoria de Parque Nacional em 1957, como resposta às evidentes necessidades de preservação dos ecossistemas. Durante os anos da guerra civil (1975-2002), a Quiçama ficou ao abandono e a vida selvagem característica foi praticamente extinta. Terminado o conflito armado, as autoridades delinearam um projeto de recuperação, repovoando o território com animais trazidos do Botsuana e da África do Sul.

 A vegetação varia muito das margens do Rio Kwanza ao interior do Parque: manguezais, mata densa, savana, árvores dispersas, catos, imbondeiros, bem como de uma fauna igualmente abundante e variada: elefantes, zebras, girafas, macacos, manatins africanos, palancas vermelhas e uma grande variedade de aves, entre muitos outros. 
As imagens que a seguir se apresentam são da minha autoria. Recolhidas no Parque Nacional da Quiçama em 2016.














Bibliografia:
- Araújo, M. (1998) “Avaliação da Biodiversidade em Conservação”. Silva Lusitana 6 (1). Lisboa.
- Millennium Ecosystem Assessment, 2005. Ecosystems and Human Well-being: Biodiversity Synthesis. World Resources Institute, Washington, DC. 
- A Economia dos ecossistemas e da biodiversidade – TEEB(2008).
- Wilson, E.O. (1988) “ The current state of biological diversity”. In Biodiversity. National Academy Press, USA.
- Bryant, P.J. (2005) Capítulo 1 e 2. In Biodiversity and Conservation- a hypertext book.
- Miller, G. Tyler & Spoolman, Scott (2005)”Living in the Environment: Concepts, Connections, and Solutions”, Brooks/Cole, Belmont.
- Myers, N. (1996) “The rich diversity of biodiversity issues”.
- State of the World´s Cities 2012/2013, Prosperity os Cities, 2013, Routledge, New York.
- http://www.redeangola.info/roteiros/parque-nacional-da-kissama/

8 comentários:

  1. Olá Sandra Duarte!
    Obrigada por partilhar estas fotografias... sem dúvida que promove muito bem o local que retrata.
    Ao pensar em causas de para a perda de biodiversidade e destruição de ecossistemas confesso que a Guerra não é o primeiro motivo que me ocorre. Mas, ao refletir é óbvio que uma guerra com a duração de cerca de 37 anos causará danos irrecuperáveis nos diversos ecossistemas, diminuindo os serviços prestados por estes e amplificando ainda mais todos os danos causados aos seres humanos.
    O retomar do projeto do parque constituiu assim uma tentativa de recuperar parte da vida selvagem que foi perdida e, com isso, restabelecer o funcionamento de alguns ecossistemas permitindo à população aceder a bens como alimento, água, madeira, entre muitos outros. De facto a definição de Parques Naturais tem sido uma mais valia na preservação da biodiversidade uma vez que limita e proíbe uma série de comportamentos causadores de danos ambientais.
    Cumprimentos,
    Isabel Campos

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  2. Obrigado Sandra Duarte pela reflexão.
    Relacionado com a problemática da biodiversidade urbana, não te parece ser pertinente termos em conta a Ecologia da Paisagem? (cf. com alguns estudos de Manuela Laranjeira). E a fragmentação dos habitats, em que medida influencia a biodiversidade? De qualquer modo, parece-me ser pertinente ter presente o papel do homem, neste e noutro qualquer ecossistema, e a relação que se estabelece entre a conservação e a continuidade de determinados ecossistemas. O homem, aquele que destrói, é também aquele que tem a capacidade de dar uma ajuda à natureza.
    Marco Livramento

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Boa tarde Marco,

      obrigado pelo comentário que deixou e pelas interrogações colocadas. A ausência de resposta prende-se, exclusivamente, com o facto de querer aprofundar aspetos pertinentes que salientou e, portanto, necessito de algum tempo de leitura e reflexão. Fica o compromisso de uma resposta em breve.

      Cumprimentos,
      Sandra Duarte

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    3. Boa tarde Marco,
      a expansão urbana está fundamentalmente associada ao aumento demográfico, mas é também impulsionada pelo dinamismo funcional, o que leva parte da população e das atividades económicas a migrarem em direção às áreas periféricas. Todavia, os vários processos de expansão urbana, designadamente a suburbanização ou a periurbanização, pouco ou nada organizados, desencadeiam impactes territoriais, sociais e ambientais muito diversificados e indesejáveis. A nível ambiental, a expansão urbana promove, por exemplo, a ocupação de solos agrícolas e florestais, sendo que em Portugal os solos com aptidão agrícola localizam-se em áreas litorais e que, constituem as áreas mais urbanizadas e densamente povoadas. Ora, a fragmentação e a perda de habitats selvagens, que referiu, constitui um dos inúmeros exemplos que traduz as consequências que a expansão urbana inevitavelmente origina, especialmente na perda da biodiversidade e a impactes muito profundos nos ecossistemas, devido à edificação de estruturas urbanas e/ou vias de comunicação. O desafio da sustentabilidade urbana reside em conseguir a desejada convivência harmoniosa entre o desenvolvimento das diversas atividades e o seu meio envolvente, promovendo o crescimento de cidades ditas ecológicas, ou seja, minimizando o impacto no meio ambiente e garantindo o equilíbrio da paisagem.

      Cumprimentos,

      Sandra Duarte

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  3. Sandra, Excelente comentário/ reflexão. Fiquei curiosa relativamente à razão da escolha do Parque Nacional da Kissama? Quer partilhar? Até breve, Paula Nicolau

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  4. Boa noite Doutora Paula Nicolau,

    a razão da escolha prende-se com o facto de estar a residir em Angola há 3 anos, por motivos profissionais. Sempre que é possível, aproveito para sair da caótica cidade de Luanda e descobrir outras paisagens.
    O ano passado fui conhecer o Parque Nacional, que fica relativamente perto da cidade de Luanda, e pude perceber, in loco e em diálogo com os guias do parque, a história do passado recente daquele local, clarificando assim a razão pela qual não se observam tantos animais selvagens, como seria expectável. Ainda assim, estão a recuperar em número e diversidade. Inclusivamente, constatei a existência de áreas próximas do Parque onde, por razões desconhecidas, a desminagem não foi totalmente concretizada, e cujas placas de sinalização da presença de minas assim o comprovam.
    A arrebatadora paisagem e a singularidade da mesma permitem, inequivocamente, fundamentar as ações que promovem e asseguram a conservação da fauna e da flora selvagens, a longo prazo. As iniciativas que têm vindo a ser desenvolvidas contribuem para a reparação dos danos ambientais do passado e permitem assegurar às gerações vindouras a possibilidade de usufruírem legitimamente de tamanha riqueza ecológica.

    Cumprimentos,

    Sandra Duarte

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  5. Olá Sandra,
    Desculpe o comentário tardio, mas somos muitos e muitas postagens a acompanhar. Fico agradecida pela excelente reflexão. Temos muitos conflitos armados atualmente pelo mundo. Ficamos estarrecidos com a perda de vidas e os prejuízos econômicos de uma guerra que esquecemos de analisar até onde a guerra impacta, as vidas, os ecossistemas, a subsistência das famílias. Obrigada por nos lembrar e fazer refletir que vivemos integrados aos ecossistemas e dele dependemos.

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Conservação da Biodiversidade em espaço urbano

Conservação Da Biodiversidade Em Espaço Urbano by sandra on Scribd